Em segurança tenho por divisa: «vale mais prevenir do que remediar». E foi dentro desta forma de estar na vida que decidi escrever algumas palavras sobre a morte do jovem flaviense, Pedro Joel, natural de Tronco, endereçando o meu pesar à família de coração destroçado. Logo tinha de ser um dos nossos a pagar tão alto preço por uma negligência!
A nossa forma de estar na vida sugere-nos que «cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém». Por mais inofensivo que se apresente o acto deve ser sempre avaliado por nós, na óptica da segurança, seja de nós próprios ou de outros.
Quando nos deslocamos na estrada se caminharmos pela berma, sempre de forma a vermos as viaturas de frente, ou se for de noite ou com pouca visibilidade levarmos o colete reflector vestido, ajuda a evitar mortes na estrada. Sempre que nos pomos ao volante duma viatura e pensarmos nos riscos que podemos enfrentar vamos ter mais cuidado com a nossa condução ou com a dos outros.
Se estivermos em casa e tivermos sempre o cuidado de iluminar as escadas e patamares, podemos evitar situações muito complicadas. Também, quando pensamos mudar uma lâmpada ou limpar os vidros altos de uma sacada devemos pensar que estamos a enfrentar um risco. Principalmente, a partir dos cinquenta ou sessenta anos, começamos a perder faculdades e o nosso poder de equilíbrio não é o mesmo como quando tínhamos vinte ou trinta, pelo que uma queda de consequências imprevisíveis pode acontecer quando menos se espera. Assim, devemos adquirir utensílios com os cabos compridos que nos deixe executar uma simples tarefa doméstica com os pés no chão. E para outras devemos pedir ajuda a pessoas mais novas, recomendando-lhe cuidado.
O meu saudoso pai, que era um caçador, dizia sempre que «uma arma não conhece o dono», daí alguma cultura de segurança recebida no berço e que me tem sido útil pela vida fora.
Foi essa cultura de segurança que poderá ter evitado um acto fatal em que estive envolvido. Nunca deixar o carregador da pistola junto desta, mesmo escondido. Embora eu escondesse a arma em cima dum guarda-fatos, em local inacessível aos meus filhos, certo é que o rapaz, com cerca de três anos ou menos, trepou, não sei como, ao armário e apareceu de pistola em punho à empregada (esta nem sabia que eu tinha o objecto) e a rir-se. Ela até achou graça e pensou que era mais um brinquedo dele. Mas sem balas não há arma de fogo que nos fulmine.
Nunca devemos permitir aos filhos que empunhem brinquedos a simular armas de fogo e os apontem aos pais ou a outras pessoas.
Na vida militar, principalmente em situação de comando e condução de homens, sempre tive o máximo cuidado para que ninguém fosse afectado com acidentes estúpidos. Quando comandante de pelotão, antes da disciplina e do brio, estava sempre a segurança. Antes de serem distribuídas as G3 aos soldados recrutas tinham que saber «de cor e salteado» as normas de segurança, em que posição se verificava se uma arma estava descarregada e em segurança… Todas as manobras e atitudes preventivas tinham de ser repetidas até os mais «broncos» terem interiorizado os procedimentos.
Outros achariam que eram manias minhas, mas eu preferia pecar por excesso, do que tentar remediar o que não tem remédio.
Ainda hoje, vai para dez anos que promovo, anualmente, uma actividade distrital em prol do Ambiente e da Floresta e o máximo cuidado tem evitado que haja um simples joelho ou cotovelo rasgado, embora junte entre 1.000 a 2.000 jovens. As situações imprevistas acontecem muito menos frequentes quando se tentam prevenir.
A morte do jovem flaviense parece-me um acto estúpido ou uma morte por negligência e que salpica de sangue a prestigiada Academia Militar, os Oficiais responsáveis e o próprio cadete envolvido.
Portanto se houvesse mais cultura de segurança no meio familiar, se os instrutores/professores promovessem uma adequada cultura de segurança com as armas de fogo junto dos instruendos/alunos e se as desumanas e estúpidas praxes ali praticadas (como em outras academias) fossem orientadas para os bons costumes e para uma cultura de segurança não teria, por certo, havido uma morte inglória, que só arrasta vergonha e dor.
Era bom que se apostasse mais em cumprir as mais elementares normas de segurança na caserna. Na caserna, em casa, na estrada, em cima de tractores, na caça ou onde quer que seja e que a culpa nestes casos, como noutros não morra solteira.
Que esta minha reflexão leve a apostar-se mais na segurança de pessoas e bens, para que não haja tantas perdas e mortes estúpidas!



