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ArteAzul-Atelier

 

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Ovos da Páscoa de esferovite

decorados com bisnagas dimensionais

Os ovos da Páscoa podem ser decorados de muitas formas, evidentemente. No caso que apresentamos neste artigo, a decoração é muito simples e pode muito bem ser orientada para crianças. Os suportes para esta decoração são porções de esferovite com formato oval. Estes "ovos" encontram-se com vários tamanhos nas lojas de artes decorativas.

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Découpage e Cultura Tradicional

O Découpage e a cultura do Pays-d'Enhaut

Tal como em outras técnicas de arte, também o Découpage, referindo  evidentemente o Découpage na Suiça, especificamente o do Pays-d’Enhaut, tem sofrido influências modernistas em que diferentes opções estruturais de composição são adotadas, como as efetuadas através de motivos assimétricos e abstratos.

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Temáticas do Découpage Suiço

Chalés, montanhas, corações, vegetação, figuras humanas e animais

As temáticas expressivamente representadas nas obras de Découpage, no Pays-d’Enhaut, são essencialmente as que se relacionam com os chalés - casas de madeira características das montanhas suíças -, motivos com corações, vegetação, figuras humanas e animais; tudo isto associado aos costumes e tradições como por exemplo a ida e vinda dos criadores de vacas para as pastagens de montanha onde aí permanecem de maio a outubro, fabricando o famoso queijo.

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Os precursores do Découpage no Pays-d'Enhaut

Jean-Jacques Hauswirth e Louis Saugy 

Jean-Jacques Hauswirth

Sabe-se pouco de Jean-Jacques Hauswirth. Nenhum escrito, dele próprio ou de outros, foi encontrado sobre a sua vida. Por testemunhas, sabe-se que trabalhou como lenhador e como carvoeiro na região de Rougemont, Pays-d’Enhaut, Suisse. Oferecia os seus serviços pelas quintas daquela região e, sempre que podia, pegava em papel e nas suas tesouras e dava largas à arte que gostava de executar - o Découpage, a maior parte das vezes pela noite dentro. Algumas das suas pequenas obras serviriam como moeda de tronca para algumas das suas refeições.

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Passagens e Afectos

João de Deus Rodrigues

Trás-os-Montes uma terra singular

De vez em quando encontro-me casualmente com um amigo que muito admiro, mais ainda por ser transmontano e ter muitas afinidades com os meus caprichos de publicista. Há tempos foi numa carruagem do Metro, agora foi na Rua do Crucifixo. O facto é que sinto prazer sempre que travo dois dedos de conversa com o poeta João de Deus Rodrigues, um conterrâneo da mesma província, nascido na freguesia de Morais, concelho de Macedo de Cavaleiros.

O assunto abordado andou à volta da festa de Nossa Senhora da Oliveira, que no 1º Domingo de Outubro se realiza em Morais, desta vez ficou sem a participação de um acostumado festeiro. Diz ser uma festa muito animada e concorrida, com majestosa procissão que sai da igreja paroquial passa pela capela da Senhora da Oliveira, percorre as ruas da aldeia e regressa à matriz. Com vários títulos publicados e premiados, do autor de “Passagens e Afectos”, comentou, em “Jornal dos Poetas e Trovadores”, a Profª. Júlia Serra (critica literária):

“Este livro, na sua simplicidade, reúne reminiscências de poetas de todos tempos: desde Antero de Quental, Augusto Gil, Cesário Verde, até Sophia de Mello e, como não podia deixar esquecido, seu conterrâneo Torga. De uns, o poeta colheu o colorido, de outros, o jeito de fazer versos, de outros, a inspiração, e de Torga a veia telúrica que fez de Trás-os-Montes uma terra singular”.

Ai tu querias coelho?

Fosses ao monte!

Hoje, e sem saber porquê, esta frase retumbou-me nos ouvidos, tal como de cada vez que visito a minha longínqua e inesquecível aldeia transmontana. 

Julgo não ser diferente da maioria das pessoas, que em dado momento das suas vidas, recordam episódios da infância, uns mais agradáveis que outros.

Esta minha recordação tem um certo ar pitoresco, embora eu na altura, não lhe tivesse achado graça nenhuma.

Tinha eu onze anos. Numa noite calma e quente de Julho, o meu pai, além de cansado de um árduo dia de trabalho, dedilhava magistralmente a guitarra tocando uma modinha muito em voga. Eu e os meus cinco irmãos, todos mais novos, munidos de abanos de lata imitando guitarras, e tampas de panelas manejadas como bateria, tentávamos cantarolar, em altos berros, a fim de mostrar quem tinha a voz mais afinada. Tal era o chinfrim, que a minha mãe nos mandava para as escadas do pátio, pois tais concertos lhe rebentavam com os ouvidos como ela dizia. Mas no fim da modesta ceia, quando ela se dispunha a cantar um fado acompanhada à guitarra, era um silêncio sepulcral que até os grilos se calavam para a ouvir. A guitarra do meu pai e a voz da minha mãe, formavam a combinação mais perfeita e divinal que já me foi dado contemplar. Quando chegavam ao fim da melodia, batíamos palmas e pedíamos bis.

Desta vez quebrou-se o encanto. A senhora D. Joaquina, uma respeitável solteirona, que tinha uns bons palmos de terra de cultivo, espalhados pelas povoações ali próximas, vinha encarecidamente, pedir à minha mãe se deixava ir o meu irmão um ano mais novo que eu, acompanhá-la a uma povoação que distava, talvez, uns cinco ou sete km da nossa, afim de receber o tributo dos seus rendeiros, onde costumava ir sempre na época da debulha dos cereais. A minha mãe disse logo que sim, mas o meu irmão tratou logo de arranjar uma desculpa esfarrapada, pois não lhe apetecia nada levantar-se às quatro da madrugada, para evitar o enorme calor, que pouco depois de o sol despontar já mal se podia suportar. Era desculpável a recusa do meu irmão, porque além de ter de suportar o calor, ainda tinha que fazer o percurso de ida e volta a pé. O único meio de transporte, era um burrinho para a dita senhora montar e tinha que ser guiado pela rédea.

Qual pigmeu que se agiganta, o meu irmão, de dedo espetado e convincente das suas razões, disse apontando na minha direcção:

- Como eu não posso ir, que vá ela.

A senhora replicou: - É-me indiferente qual dos dois me acompanhe, mas a bem da verdade, gostava mais que fosse o João porque, extrovertido como é, vai sempre a conversar e o tempo passa mais depressa. Depois, se os rendeiros estiverem todos em casa, às onze horas já cá estamos, mas se o teu irmão não pode ir, vais tu.

“Está bem abelha”, pensei enquanto dizia:

- Eu até gostava de ir, mas a minha mãe está-se a esquecer que amanhã temos a nossa debulha do centeio que leva quase todo o dia, e tenho que ajudar a fazer o almoço para nós e para as dez pessoas que vão à troca e o João não sabe descascar batatas – nesse tempo chamava-se jantar à refeição do meio dia.

Nessa altura eram muito raras as debulhadoras mecânicas, e a debulha do trigo e do centeio era feita manualmente por pessoas que se entreajudavam e à qual chamávamos trocas.

Nem os dez escudos com que a dita senhora me acenava me demoviam da minha recusa. Dez escudos nessa época, equivaliam a meio dia de trabalho de um homem.

O meu pai nada dizia e a minha mãe acabou por me dar razão, ficando assente a partida do meu irmão com a senhora para as quatro da manhã do dia seguinte. Segundo a minha mãe, não se podia dizer que não a uma senhora a quem se deviam favores, pois emprestava dinheiro a juros (elevadíssimos) a quem precisasse, e, segundo me parecia, também os meus pais tinham recorrido a tais favores.

Quando partiram na manhã seguinte, dormia eu o sono dos justos.

Por volta das onze horas e trinta, espreitando pela janela, enquanto descascava uma enorme quantidade de batatas novas, miúdas, avistei o meu irmão a uns trezentos metros. Sem um mísero chapéu que o resguardasse do sol escaldante, parecia que trazia um pimento vermelho em cada bochecha. Eu, embora com alguma pena dele, senti um enorme orgulho interior por me ter sabido esquivar com muita inteligência, na minha maneira de ver.

Com evidente esforço, subiu os catorze degraus que davam acesso à casa, bebeu muita água, e sem uma palavra foi deitar-se. A senhora, montada no seu burrinho e com a sombrinha aberta, seguiu para casa dela. Quando todos se preparavam para o merecidíssimo jantar, o meu irmão disse:

- Sabe mãe quando vínhamos para cá, passou um carro com tanta pressa que nem viu um coelho do mato a atravessar a estrada e passou-lhe mesmo por cima da cabeça. Ele ainda fez chi, chi, chi, depois esticou a perna e morreu.

- E não o trouxeste porquê? - Perguntou a minha mãe.

- Tive vergonha de vir com ele dependurado na mão e alguém podia ver.

- E foi muito longe daqui?

- Não senhora! E indicou o nome de um terreno que distava cerca de quatrocentos metros dali. As minhas orelhas pareciam radares enquanto a minha mãe dizia:

- Então vai lá buscá-lo que agora na sesta não anda ninguém por ali.

- Não faltava mais nada, cansado como estou, quero lá saber do coelho… que vá ela. – E apontava para mim. As pessoas que estavam à mesa deram-lhe razão. Quando eu me dispunha a sair, com a barriga a dar horas, ele disse-me:

- Olha que tu vai sempre pela estrada fora até o encontrares; se por acaso alguém já o tiver levado, logo vês o sangue na estrada porque ainda foi há pouco tempo.

A minha vontade não era muita em meter-me à estrada mesmo na hora do calor mais abrasador e sem almoço, mas a ideia de me deliciar com um pedaço de coelho bravo, em vez da eterna carne de porco salgada, acabou por prevalecer e dar-me alento.

Caminhei, caminhei sempre de olhos no chão na esperança de vislumbrar o almejado coelho, ou o local onde ele teria sido atropelado. Sem me dar conta da distância já percorrida, já a avistar as primeiras casas da povoação onde me tinha recusado a ir, pareceu-me enfim, ver qualquer coisa inerte no centro da estrada. À medida que me aproximava parecia-me que o vulto tinha um tamanho descomunal para ser um simples coelho. Comecei a desconfiar quando, à medida que me aproximava, um cheiro nauseabundo me chegou ao nariz. Horrorizada vi um grande cão preto, já em adiantado estado de decomposição. De regresso a casa, mesmo sem cronómetro, acho que superei a nossa Rosa Mota, que nessa altura ainda não era famosa, ao mesmo tempo que ia arquitectando mil vinganças por ele me ter feito percorrer a mesma distância que com subterfúgios eu me havia esquivado. E ainda por cima, ele é que ficou com os dez escudos.

Quando me aproximava de casa, lá estava a voz trocista da D. Joaquina que sobressaía no meio de tantas outras gritando da janela a plenos pulmões:

- Ai tu querias coelho? Fosses ao monte. Tão fina és tu como a laverca da tua mãe. Julgavam que se fosse coelho eu o deixava lá ficar; não querias lá ir mas também foste que te coseste.

Corada do sol e da vergonha, porque todos os trabalhadores que estavam a gozar as delícias da sesta foram testemunhas hilariantes deste episódio, esqueci as mil e umas vinganças arquitectadas e mantive-me em casa umas semanas sem sair à rua.

A história foi passada em 1954, mas ainda hoje, as pessoas lá na minha aldeia, em vez do habitual bom dia ou boa tarde, me saúdam com o cumprimento sacramental:

- Ai tu querias coelho? Fosses ao monte!...

Graziela Vieira, in Vertentes da Vida